c. 1800
D. João VI, para o seu coche não se cruzar com o da sua mulher, D. Carlota Joaquina

Infanta de Espanha, princesa de Portugal, rainha de Portugal, Brasil e Algarves e imperatriz honorária do Brasil, D. Carlota Joaquina (1775 -1830) é uma das figuras mais enigmáticas da História de Portugal. E, quando estudada, não parece ser o que se chama uma bem-amada. Uma explicação para isso: Carlota Joaquina escolheu sistematicamente o «lado errado» da História. Ora, como se sabe, esta é escrita pelos vencedores - e ela desempenhou durante toda a vida um papel de relevo na barricada dos vencidos. Perdeu na tentativa de arrebatar a regência ao marido, o futuro D. João VI, em 1806; perdeu, apesar da inteligência política por ela demonstrada, no projecto megalómano de se tornar rainha dos territórios espanhóis do Rio da Prata (actuais Argentina e Uruguai), a partir de 1808; perdeu, enfim, com o objectivo de manter o «Portugal Velho», fiel ao absolutismo contra-revolucionário e livre do contágio liberal, quando se aliou ao seu filho D. Miguel.
Mas há ainda outra explicação. Carlota Joaquina ficou na história como um exemplo de escandalosa devassidão sexual, uma mulher cujos insaciáveis apetites libidinosos se manifestavam num corpo que roçava a repugnância. Uma «megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue Bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a natureza», como a retratou Oliveira Martins. A nora, arquiduquesa D. Leopoldina de Habsburgo, casada com D. Pedro e futura imperatriz do Brasil, lembra que no primeiro encontro com a sogra «baixou os olhos como não querendo voltar a vê-la; as marcas da varíola, o corte de cabelo, cordões e mais cordões de pérolas e pedras preciosas enroladas em seus cabelos, pendendo de seus cachos gordurosos como cobras».
Outra descrição apresenta-a como «quase horrenda, ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas de bexigas ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena, quase anã... Uma alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos, com os impulsos do sexo alvoroçados». Ainda outro autor: «Os olhos eram pequenos, desiguais, de uma expressão má e zombeteira. O nariz quase sempre inchado e vermelho. A boca guarnecida de maus dentes, uns enegrecidos, outros amarelos, dispostos obliquamente. A pele, áspera e curtida. Para cúmulo da feiura, tinha sempre espinhas em supuração. Os braços, que usava nus, eram chatos, ossudos e, acima de tudo, muito cabeludos.»
Apesar de o seu casamento com o rei D. João VI, celebrado em 1785, ter durado 36 anos, a vida em comum foi relativamente curta, interrompida por uma prolongada separação de facto. A sua promiscuidade chegou a tal ponto que, não obstante ser «mais feia do que uma noite de trovões», quando o seu coche se aproximava do coche do seu marido nas estradas que levavam ao Palácio de Queluz, D. João gritava indignado ao cocheiro: «Volta para trás! Vem aí a puta!»
Dos nove filhos do casal, a maior parte dos estudiosos concede ser provável que o varão mais velho que chegou à idade adulta (antes dele nascera D. António Pio, que morreu com seis anos), o futuro D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal, era mesmo do legítimo esposo. Quanto aos outros, é quase certo que um deles devia a sua paternidade aos prestáveis serviços do almoxarife do paço. Dos restantes, diz-se que apresentavam notórias semelhanças fisionómicas com vários oficiais da guarda.
O rol de candidatos é longo, pois muitos foram apontados como amantes de D. Carlota, desde o general Junot, que foi embaixador de Napoleão em Lisboa poucos anos antes de encabeçar a primeira invasão francesa, passando pelo 6.° Marquês de Marialva, D. Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho, pelo almirante Sidney Smith, comandante da frota inglesa ancorada no Rio de Janeiro, após a fuga da corte para o Brasil, por Manuel Francisco Rodrigo Sabatini, oficial da guarda de D. Maria I, até muito mais baixo na rígida escala social daquele tempo, o cocheiro da Quinta do Ramalhão, em Sintra, João dos Santos.
No livro EI Rei D. Miguel, o autor, Faustino da Fonseca, cita uns versos populares da época: «Miguel não é filho/ De El Rei Dom João! / É filho de João dos Santos / Da Quinta do Ramalhão.» Entre as fontes que legaram à posteridade testemunhos da vida escandalosa de D. Carlota Joaquina contam-se a viúva de Junot, Laura, nas suas Memórias da Duquesa de Abrantes, e a sua própria nora, D. Leopoldina de Habsburgo, primeira mulher de D. Pedro, que relata umas conversas com a infanta D. Maria Teresa, a primogénita de D. Carlota e D. João:
«Nossa Mãe, nós temos de respeitá-la, mas é preferível sair do seu caminho. Vai ouvir os seus gritos até nas ruas mais distantes, quando ela tem um ataque de raiva, porque não lhe trazem jovens fortes... Ela é uma Bourbon e teve de casar com um Bragança, que não é uma estirpe boa. Com os portugueses tudo é indefinido... pouca ambição, pouco espírito de luta. Em tempos, meu pai mandou prendê-la num convento, porque não podia mais confiar nela. Ela oferece-se aos criados... No Convento da Ajuda tentaram conter o seu desejo com uma alimentação especialmente leve, mas voltou ainda mais birrenta. (...) Queria vender as jóias para poder pagar uma conspiração que derrubasse nosso pai. Isso ela já havia feito em Lisboa, tendo conseguido afastar D. João do trono, declarando-o incapaz... Os comerciantes na praça troçam, chamando-a de ninfomaníaca; ela encomenda manteiga irlandesa e trigo alemão, o veludo e as cortinas de tule da Itália, e manda o porteiro ir até a agência, para que lhe mandasse garotos. Ela mesma desce ao porto quando chegam navios da Europa; tem um interesse especial por aqueles que se declaram médicos, querendo que lhe expliquem e desenhem as partes do corpo humano... A maioria tem medo de tal mulher; eu também.»
D. João não tinha ilusões sobre a sua mulher. Mesmo assim insistia em manter-se informado das suas aventuras amorosas. Um dos incumbidos de espiar a rainha no palácio real e na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, foi Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, um plebeu que chegou a privar com o rei e a ligar-se de amizade com o futuro imperador, além de desempenhar cargos de confiança na corte do Brasil. Em certa ocasião, depois de ouvir os relatos do Chalaça, D. João não se conteve e desabafou: «Na vida de Carlota, a moralidade morreu...»
Retirado de: Fernandes, Ferreira e Ferreira, João, Frases que Fizeram a História de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006.
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